20060418

Video Killed the Radio Star

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Um pouco de paciência que é só da primeira vez]


BREVE HISTORIOGRAFIA DA ARTE DO VIDEOCLIP

É bom que se diga, antes de mais, que a pulsão da imagem em ligar-se ao som existe desde sempre, porque o sonho da tecnologia tem sido o de substituir-se ao real...

1929 - The man with the movie camera, de Dziga Vertov, é montado em de acordo e em sincronia com a música, planos rápidos e pleno de efeitos especiais. Em termos formais, é o antepassado dos telediscos. Mas a aproximação é apenas casual, porque na sua essência The man with the movie camera é uma obra-prima de folêgo. O mesmo não se pode dizer de 99,99% dos telediscos.


1930 - A data não é precisa, porque de Max Fleischer se trata. Primeiro criou o sistema "follow the bouncing ball" para os intervalos do cinema em que o pianista/organista de serviço tocava músicas para serem cantadas pelo público. Para os que não conhecessem a letra da canção, um filme projectava as palavras, com uma bola que saltava pelas palavras à medida que deviam ser cantadas. Hoje chama-se karaoke.
Em 1934 Fleischer cria Betty Boop e uns anos mais tarde Popeye, desenhos animados que são, também, canções. Esta ligação intíma dos "cartoons" com a música prolonga-se até aos nossos dias: Looney Tunes e Merry Melodies, denunciam nos próprios títulos a sua origem.


1939 - A Mills Novelty Company of Chicago lança a Panoram MI-1340, uma espécie de jukebox mas para filmes. Genericamente intitulados de "soundies", por estes pequenos filmes (3 a 4 minutos, 16mm, projectavam-se invertidos como em retroprojecção) passaram muitos dos grandes nomes do jazz da altura. Os "soundies" são os verdadeiros antepassados dos telediscos.


1956 - Rock Around the Clock, com Bill Haley, é um sucesso de bilheteira. O protagonista do filme é o emergente estilo musical "rock 'n' roll", um filão que Hollywood acaba de descobrir.


1957 - Entra em cena o Rei (os EUA, vale a pena recordar, são uma república). Se nos seus dois primeiros filmes, Love me Tender e Loving You, Elvis Presley passava por actor com umas canções aqui e acolá, em Jailhouse Rock coube-lhe coreografar-se e soltar toda a sua energia sexual; a América caiu-lhe aos pés (e ancas). Entre 1956 e 1969, Presley participou em 31 longas-metragens.


1957 - A música chega à televisão com American Bandstand (que durou até 1987). O formato do programa baseava-se nos tops da rádio, passando as músicas em emissão ao vivo e com público em estúdio (adolescentes que dançavam; para um bom retrato desta época ver o filme Hairspray, de John Waters).


1958 - Oh Boy, da cadeia inglesa ABC, merece aqui destaque pelo início de uma nova estratégia nos programas televisivos dedicados à música dos tops: a actuação das bandas ao vivo no estúdio. Uma vez mais, várias cópias se seguem.

1960 - Os franceses lançam uma réplica da Mills Panoram, agora intitulada Scopitone e a cores. Dos artistas que gravam canções/filmes para a Scopitone assinalem-se Jacques Brel (a imortal Madeleine) e Serge Gainsbourg (Comic Strip e Bonnie & Clyde, com Brigitte Bardot), entre muitos outros que felizmente a história esqueceu.


1962 - Os Beatles tocam ao vivo em Ready!Steady!Go!, um dos mais populares programas musicais na TV. Depois dos quatro de Liverpool nada será como antes.

1964 - Richard Lester realiza Hard Day's Night com os Beatles. A narrativa serve para introduzir as canções dos Beatles. Formalmente, será a grande influência para os vinte anos seguintes.

1966 - Impossibilitados de ocorrer a todas as solicitações, e também porque as televisões pretendem cada vez mais as bandas em playback e não actuando ao vivo, os Beatles produzem um filme promocional de Paperback Writer. Irão fazê-lo para todas as suas principais canções a partir daí. O sistema dos telediscos está lançado, já só falta a tecnologia vídeo.


1968 - Os Beatles continuam a estabelecer marcos formais na linguagem audiovisual: Yellow Submarine, desenho animado, em que os Beatles são personagens, com muitas canções.


1975 - Os Queen apresentam-se ao mundo no teledisco Bohemian Rapsody. Pela primeira vez é possível colocar o dedo na ferida: o culpado do êxito da canção é o teledisco.


1978 - Um sistema experimental de televisão interactiva é lançado no Canadá: QCube. No programa Sight and Sound (vale a pena traduzir: "visão e som") os espectadores podem votar nas suas músicas preferidas. O sistema é abandonado devido aos custos.


1981 - Com as singelas palavras "ladies and gentlemen, rock 'n' roll!", iniciam-se as emissões da MTV (Music TeleVision): telediscos dia e noite. Por todos os bares e discotecas aparecem ecrãs de televisão, algumas vezes com a imagem por fundo a outra música qualquer colocada pelo dj de serviço. Substituíndo-se à escola, a MTV forma a nova geração, acelerando cada vez mais as imagens. Os telediscos tornam-se conteúdo e já não publicidade. A publicidade torna-se um imenso videoclip.

Simbolicamente, o primeiro teledisco emitido pela MTV é Video Killed the Radio Star, dos The Buggles. Anos depois na Europa será Money for Nothing, dos Dire Straits, a iniciar a emissão. O refreão da canção é... "I want my, I want my MTV"


1981 - Não há bela sem senão, ou ele há estrategas de marketing clarividentes. Logo no seu primeiro ano de emissão a MTV "censura" (isto é, não exibe, o que é um seu direito) o teledisco dos Duran Duran, Girls on Film. Motivo: o teledisco exibe nudez frontal. O disco vende que nem ginjas.


1984 - John Landis, realizador formado na mítica "escola" de Roger Corman, junta-se a Michael Jackson para realizar "Thriller". Para além de ser um teledisco, é também uma ficção dramatizada e, logo, o seu tempo de duração excede o da canção. Também Jackson excedeu o seu prazo de validade.